Entrevista
Entrevista ao Wesley Peres onde as perguntas se repetem. Wesley entrevistou outras pessoas e todas as outras entrevistas tiveram grande carga de singularidade.
1. Wesley – Frederico, Octavio Paz escreveu: “Assim, num extremo, a realidade que as palavras não podem expressar; no outro, a realidade do homem que só pode se expressar com palavras”. Até que ponto a literatura aproxima o homem, ainda que meio de lado, de través, daquilo que é impossível de se falar, de coisas que escapam à linguagem, daquilo que nos queima os olhos se olharmos diretamente?
Frederico – Os olhos são coisas tão frágeis, não é mesmo? Existem palavras não escritas em quase tudo que olhamos. O homem se aproxima delas para se enxergar e, por vezes, este espelho toma a forma do sol e nos carrega ao fogo.
2. Wesley – O artista plástico Francis Bacon disse, certa vez, que um objeto de arte, quanto mais próximo do ininterpretável, melhor. Disso subentende-se que não deve ser o ininterpretável, o des-sentido, mas se aproximar o máximo disso. E a literatura, especificamente, quanto mais próxima do ininterpretável melhor?
Frederico – As palavras devem transmitir o instante, corresponder a uma experiência, uma conotação descoberta. Esgotam-se os sentidos quando buscamos ler na vida a morte, por desejarmos motivos para o gozo em cada um dos segundos vividos, quando questionamos o real nos sonhos. Os sonhos não nos prendem frente ao espelho através de metáforas? O importante é que a frase, o texto, tenha sentido aos olhos e à vida desnuda, íntima, do escritor, afinal, a quem se escreve? Para que assim desnude, também, o leitor. A partir desse momento, as palavras renascem. Penso que uma única palavra basta para que o labirinto se feche ou se abra numa cadência significante. Delmo Montenegro conseguiu muita coisa nesse sentido, a meu ver, em seu livro Cião Cadáver.
3. Wesley – Numa entrevista a Günter Lorenz, Rosa fala de uma “metafísica de minha linguagem”, que ele diz ser blasfema, pois consiste em, por meio da língua, “servir a Deus corrigindo-o”. Você também tem uma metafísica própria de sua linguagem?
Frederico – Entendo, porém, não existe um Deus a ser corrigido. A única coisa a ser corrigida, aqui, é que a palavra “Deus” deveria estar entre aspas. Literatura é um lugar que não precisa de escravos. Na Odisséia os deuses são meras representações, sublimações de sentimentos; devo estar enganado! Metafísica, para a Pat, não cabe em seu vocabulário, no meu não cabe a palavra, a simples palavra, “Deus”.
4. Wesley – Em entrevista a José Otávio Guizzo (Revista Grifo, Campo Grande), Manoel de Barros diz assim: “Achava e acho ainda que não é hora de reconstrução [...] Li em Chestov que a partir de Dostoievsky os escritores começam a luta por destruir a realidade. Agora a nossa realidade se desmorona. Despencam-se deuses, valores, paredes… Estamos entre ruínas. A nós, poetas destes tempos, cabe falar dos morcegos que voam por dentro dessas ruínas. Dos restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas [...] Aos poetas do futuro caberá a reconstrução – se houver reconstrução”. Pois bem, essa reconstrução, será possível? Será possível remembrar a unidade perdida desses “restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas”?
Frederico – Tenho os meus restos, eles não fazem parte dessa totalidade caótica. Escrevo pra mim, para me abandonar, não me importo em morrer no final ou que meus gestos não estejam ligados ao meu corpo. É tudo o que posso por agora, Wesley.

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