do cosmo do corvo

Nos contratempos dos dizeres

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em Setembro 26, 2008

Buscar o silêncio é querer da morte o acaso. De quem a criança que chora ao lado? Este choro sem fome que devora o meu existir.

Eu. Aqui. Parado.
De onde o vento zunindo esvaziamentos?

Um lugar distante toca em meu ombro; olha-me lento, de modo rasgante.
De onde o vento do nada? Do nada? Por nada?
Chegada ou partida? Resgate?

De quem as linhas adormecidas dos pés que pisando forte acima, abaixo, paredes, lados, me silenciam? Caminham, os pés, onde, para onde? Se andam perdidos nos meus ouvidos os passos. Perder o passo é isto? Perder o sono, perder a calma, criar calos, perder algo? Madrugada, os pés enrugados, poça sem fundo, piscina lodosa, pedra rachada. Os pés escorregam corpos, racham o fundo raso de meus ouvidos. O Mundo ruge sinos, por hora. Leito das promessas.

Buscar o silêncio, não ouvir soluços, tampar com cera os ouvidos, rir às sereias é cantar o acaso. O acaso como coisa ambígua não é coerente ou natural. Canta-lo é desespero e desesperante (errante?), mas é tudo o que sobra dos homens. Que mais pode ser feito? Cantar os passos enquanto me atravessam?

Acalento os ossos com carne. Estou cheiro seco de dedos. Dez dedos de carne na carne dos ossos. Era o tempo das árvores. Era o tempo dos pássaros descansando nos céus. Era o tempo da tarde, das portas, das penas. Era o medo abandonado onde ninguém vê. Era eu, lá, parado. Tic tac tic tac. Explode nas nuvens a noite. Tic / tac tic / tac. Crescem-me os olhos do sol. Cravo o retorno, suspiro um rosto. Escorrego o silêncio, parado. Eu. Aqui estou. Correndo junto às correntes do tempo de cordas cravadas. Estar aqui é calar. Que vento o Nada? Um sino do mundo? Leio promessas.

Parede. Choro. Passos (risadas). Riem de mim os calcanhares? No choro o riso? A fome de terra dos corpos? Parede de vidro, toque dos olhos, sopro refletido, reflexo ébrio, morada? Vizinhos de meu silêncio? Hoje? Amanhã? Amantes? Amar o amanhã, desejando-o. Ter amanhã o minuto. Tic-tac-tic-tac. E agora? Retorno desorientado, entreabrir páginas, entrecortar memórias, reencontrar gritos, espantos, reperguntas. Este amor sem volta? Com nitidez escuto disparos. Contra quem? Por quem? Alguém? Alguém nas pedras confunde o abismo das partes rachadas, que coincidem, com olhos. Coexistem? Hoje? Agora? Sinais do tempo desfeito: a criança chora. E ainda existe o vento com seu acervo de semblantes sonoros. Outra vez, ousei voltar. Outra vez volta a disparar. Revisito as buscas deste momento feito de chumbo que pesa sobre mim a noite inteira; buraco existencial, fotos desaparecidas, despercebidas, sombra de vidro na água. Sufoco o silêncio agudo dos aplausos do outro lado. De quem, à quem, a criança imotivada chora? Tac!

2 Respostas

Subscreva aos comentários comRSS.

  1. Patrícia disse, em Setembro 26, 2008 às 8:25 pm

    Fred, esse texto ficou demais e eu nem sei o que dizer da imagem que o acompanha, quem sabe, arrebatadora! bjs! Pat

  2. wilton disse, em Setembro 30, 2008 às 11:42 am

    muito legal fred


Deixe uma resposta