o “peixe” e o “barco”

- Vocês estiveram juntos?
- Eu tinha algumas perguntas… Imaginei que somente ela saberia da…
- Fala!
- Melhor não.
- Fala!
- Não, esqueça!
- Eu quero. Quero ouvir sair da sua boca. Quero que sua saliva ensope a verdade.
- Você tem escrito?
- Não. Só durmo.
- Acho que escrever ajudaria.
- Diga logo o que quero ouvir. Me lamba com força, vai.
- Você sabe o que direi. Não vejo necessidade.
- Sádico!
- Eu mereço…
- Como ela está?
- Está melhor.
- Ela pensa em se matar?
- Pára, não piore as coisas.
- Eu?
- …
- Você gosta?
- Ainda respiro.
- Conte-me mais, por favor!
- Só quando sua saliva me ensopa de verdades. Sinto-me pura, límpida. Desabo nesse rio de águas verdes onde consigo notar a distância se alastrando e a luz entrecortada pela água. Um único peixe me é especial. Tento cercá-lo a todo custo. Mas, minhas mãos são tão pequenas e o ambiente não é muito favorável. Sonho sempre com ele. Acordo e demoro a recuperar a respiração.
- Entendo. Desculpe, mas você sempre morre no final?
- Não consigo ficar sem ele.
- Você disse ser um barco com uma abertura, uma espécie de janela, no centro?
- Sim. Retinhamos nossos pés para não molhá-los.
- Por isso digo que escreva.
- Como assim? Por que insiste nisso?
- Ora, não percebe que um barco com um furo não pode flutuar? Transpondo para o papel as coisas ficam mais sustentáveis.
- O barco poderia voar que eu não notaria. E a realidade é uma coisa que me corrompe.
- Você está de brincadeira, né?
- De forma alguma.
- Suponhamos que seu barco voe. Onde você estaria?
- Na água.
- A mesma água que você evitara que tocasse seus pés?
- A mesma água que me sufoca os sonhos.
- Quando você esteve nela?
- Passei através da abertura. Mergulhei de olhos fechados. Quando os abri pude a enxergar olhando para mim e o peixe, juntos. Tudo era tão verde e, no principio, tudo parecia tão imediato. As coisas não permaneceram assim. Nem eu mesma permaneci em mim, eu acho. Acho que me tornei líquida.
- Você é linda. Linda!
- Agora você acha lindos os meus pedaços?
- Sempre te descubro linda.
- …
- Você gosta?
- Queria que não fosse tão vazio. Não por falta de pessoas, não é isso. Sinto falta de algo que me acolha quando sozinha.
- Não por falta de pessoas… algo que te acolha…
- É.
- Eu deixo que me acolha.
- Pervertido!
- É sério. Você se acolheria melhor me acolhendo.
- Quando foi que me tornei uma casa?
- E eu um barco?
- Você não era o barco…
- E nem o peixe…
- Não!
- O que sou?
- A língua que me lambe.
- Só tenho dentes.
- Morda-me!
- Você gosta?

scary fish!