Restos Gestos
Um poeta impossibilitado de falar escreveu, por mera falta de inspiração, em seu peito e braços, nas pernas e nos olhos:
“Tão rígidas se formam na boca as palavras. Nenhuma brisa frígida será capaz de carregar a rigidez desse silêncio encarcerado em meu coração e tecidos, em minhas cordas vocais, mucosas e nos ouvidos. Mais um trago de pedra e meus dentes se tornarão o concreto de inúmeras tumbas. Minha língua deslocará sua rigidez muda. Tudo permanecerá idêntico ao silêncio agudo que não me lega palavras, não me deixa existir pleno, que costura meus lábios com um sorriso palpável de desconfiança. Tem razão, eu realmente não agüentaria o sofrimento de não poder dizer a rigidez de pedra de teus dizeres, não agüentaria ter meus lábios selados, não suportaria não possuir língua para gozar em suas ancas os desgostos não ditos, nas aftas já secas de tua saliva, em suas transparências ignotas. Não agüentaria levantar paredes que me aprisionem. Morreria sem janelas que me sufoquem. Permanecerei sendo escutado pelas vozes que te consomem os pensamentos. As mesmas vozes-gestos-agulhas que me enlatam o mundo, que bebem de meus ventos, que me amam e, justamente por isso, devoram as minhas margens. Um dia, quem sabe, degole essa liberdade híbrida que não consigo dizer.”
Poeta que morreu reduzido às palavras acessas. Cansou das velhas cortinas. Morreu cheiro de pó e apenas. Não há mistério no cheiro de sangue escrito em sua goela. Houve um tempo de essências e de soslaio morreu cúmplice de seus respingos escritos nos olhos. Houve um tempo de gestos-disfarces intransponíveis, além de cortantes; voz presente jamais. Refletiu sobre as transparências das tardes inauditas de suas infâncias e novamente matou seu corpo e trespassou culpas.


que surpresa boa!!!
bjs.
Pat
isto é otimo!!!!!!