(M)ar
São muitas as vozes de meu silêncio. Redemoinham ao meu redor sem que consiga tocá-las o centro. São de um silêncio oceânico que me sufoca. Este turbilhão de vozes que finge ser de um mundo esquecido quase todo feito de vento é meu veneno. No entanto, as minhas vozes não perdem o mundo como as suas ondas perdem o mar. São vozes que não se deixam. Não se encerram em qualquer leito. Volto ao espelho sem ter quem olhar. São tantos os silêncios soprados aos meus ouvidos que parecem gaivotas surdas cansadas de voar. Batem no vidro e voltam a soluçar. Alguém se esconde ou volta ao lar. A solidão quando bela não se faz voz no olhar. A solidão é coisa terna. Ela só não sabe quem amar. É bom estar sozinho quando se sabe que olhos expor. É sempre bom carregar doses de solidão para que não se perca por caminhos abandonados com paredes que foram arrancadas aos dentes e que permanecem sem estarem lá. Zele bem de seu caminho para que nele não se afogue. Não tenha pressa, pois, é minha aquela canoa em alto-mar. Quando te vi, pedi, sem falar, que me olhasse junto as ondas de seu olhar. Você se conservou sempre oscilante. Nunca saberá se as venci ou se virei mar. Nunca saberá que vozes foram aquele instante.
desvendando o sol
A manhã, por dentro e por fora, cicatrizava. Qualquer coisa sem importância escorria pelo chão. Esta pequena cicatriz me causou algum susto. Meus nervos queimavam. Não notara, até então, o tubo que me ligava a você. Hoje estive prestes a gritar. Procurara a minha boca. Não descobri meus ouvidos. Todos os meus sentidos me ligavam a você. Um tubo, um tudo, me causava quase nada e quase um mundo. Eu tinha os seus olhos, respirava seu ar, tinha uma boca que não era minha. Seu rosto me sorria. Suas mãos alisavam seu corpo, sua pele, com estranho encanto. Só agora eu descobri: eu me tornara você e você me tinha. Deveria ter estado, durante todo o tempo, unida a mim enquanto eu me partia. Dividia comigo as amarguras que me consumiram em sua ausência. Compartilhava meu sono e meus tombos. Nus, rasgávamos o tempo. De nada eu sabia. Só agora se tornaram delicadas e quentes as gotas que daquele corpo escorriam. Apenas aquele corpo morria. Morria enquanto trepávamos as noites para desvendarmos o sol.
O silêncio beija palavras
Tenho sintomas de silêncio.
Sinto que o silêncio entrelaça nas entonações das palavras um resto de chuva.
Seu sabor de nuvem umedece as palavras.
Seu silêncio beija palavras.
O silêncio desenha sua própria voz.
Deixa-se nas pálpebras da liberdade.
Não precisa ser dito.
Não precisa ser som.
Desobriga-se de um sentido que toque os lábios.






