do cosmo do corvo

Entrevista

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em novembro 4, 2008

Entrevista ao Wesley Peres onde as perguntas se repetem. Wesley entrevistou outras pessoas e todas as outras entrevistas tiveram grande carga de singularidade. 

1. Wesley – Frederico, Octavio Paz escreveu: “Assim, num extremo, a realidade que as palavras não podem expressar; no outro, a realidade do homem que só pode se expressar com palavras”. Até que ponto a literatura aproxima o homem, ainda que meio de lado, de través, daquilo que é impossível de se falar, de coisas que escapam à linguagem, daquilo que nos queima os olhos se olharmos diretamente?

Frederico – Os olhos são coisas tão frágeis, não é mesmo? Existem palavras não escritas em quase tudo que olhamos. O homem se aproxima delas para se enxergar e, por vezes, este espelho toma a forma do sol e nos carrega ao fogo.

2. Wesley – O artista plástico Francis Bacon disse, certa vez, que um objeto de arte, quanto mais próximo do ininterpretável, melhor. Disso subentende-se que não deve ser o ininterpretável, o des-sentido, mas se aproximar o máximo disso. E a literatura, especificamente, quanto mais próxima do ininterpretável melhor?

Frederico – As palavras devem transmitir o instante, corresponder a uma experiência, uma conotação descoberta. Esgotam-se os sentidos quando buscamos ler na vida a morte, por desejarmos motivos para o gozo em cada um dos segundos vividos, quando questionamos o real nos sonhos. Os sonhos não nos prendem frente ao espelho através de metáforas? O importante é que a frase, o texto, tenha sentido aos olhos e à vida desnuda, íntima, do escritor, afinal, a quem se escreve? Para que assim desnude, também, o leitor. A partir desse momento, as palavras renascem. Penso que uma única palavra basta para que o labirinto se feche ou se abra numa cadência significante. Delmo Montenegro conseguiu muita coisa nesse sentido, a meu ver, em seu livro Cião Cadáver.

3. Wesley – Numa entrevista a Günter Lorenz, Rosa fala de uma “metafísica de minha linguagem”, que ele diz ser blasfema, pois consiste em, por meio da língua, “servir a Deus corrigindo-o”. Você também tem uma metafísica própria de sua linguagem?

Frederico – Entendo, porém, não existe um Deus a ser corrigido. A única coisa a ser corrigida, aqui, é que a palavra “Deus” deveria estar entre aspas. Literatura é um lugar que não precisa de escravos. Na Odisséia os deuses são meras representações, sublimações de sentimentos; devo estar enganado! Metafísica, para a Pat, não cabe em seu vocabulário, no meu não cabe a palavra, a simples palavra, “Deus”. 

4. Wesley – Em entrevista a José Otávio Guizzo (Revista Grifo, Campo Grande), Manoel de Barros diz assim: “Achava e acho ainda que não é hora de reconstrução [...] Li em Chestov que a partir de Dostoievsky os escritores começam a luta por destruir a realidade. Agora a nossa realidade se desmorona. Despencam-se deuses, valores, paredes… Estamos entre ruínas. A nós, poetas destes tempos, cabe falar dos morcegos que voam por dentro dessas ruínas. Dos restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas [...] Aos poetas do futuro caberá a reconstrução – se houver reconstrução”. Pois bem, essa reconstrução, será possível? Será possível remembrar a unidade perdida desses “restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas”?

Frederico – Tenho os meus restos, eles não fazem parte dessa totalidade caótica. Escrevo pra mim, para me abandonar, não me importo em morrer no final ou que meus gestos não estejam ligados ao meu corpo. É tudo o que posso por agora, Wesley.

Desafogado: (ou) Segundo Capítulo dos Contratempos

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em outubro 14, 2008

Pedaços cruéis de luz espalhados por esta rua pura. Crua, acima de tudo, janela refletida no chão. Os movimentos, tão difíceis movimentos, de mãos. Mãos, edifícios. Mãos, suadas. Urubus. Ao vento. Vírgulas, E o sol. Continuo interrompendo os pés, querendo regressar. Começo a entender os motivos de pensar os passos. Entendo que uso os passos como um blefe, como uma metáfora para a vida (Morte?), um modo de sentí-la(s) grave(s). Paradigmas do abandono: caminhar dormindo, caminhar sonhando, andar sobre o sono-vigília-o-entre, perseguir o blefe, escrevê-lo, acordar a parte de mim que toca o chão: entrelinhas.  Tenho os pés no chão? Eu tenho, realmente tenho, pernas? Serram-me as pernas mãos opressoras? Continuo interrompendo os pés tiranos. Uma xícara morna na rua. Pessoas ao redor. Eu serrando passos, bebendo-os.  Oficio de defuntos, vício dos galhos, esporas, vésperas, aspas. Asas em aspas arquejam sob casas, muros, pés. Eu tentando compreender (corromper) durante. Passos medem tempo? Penso o tempo nos passos ou o passo dos tempos – o tempo passando – nos passos? Vagarosamente reflexivo, caminho de dia, para o dia, pensando passos. O Mundo? Pessoas?  O contorno do mundo? O contorno dos olhares? Olho? Nada vejo! (escute)Passos. Tentarei não acusar as pessoas como frutos podres. Compará-las com goiabas, pêras, laranjas?  Todas fenecem cheiros, todas esmagadas. Dante e Virgílio. Atravessar é preciso / que pensem os passos. Pisoteio bocas, pescoços, olhos, narizes. Pisoteio tudo que constitui este rosto podre. Esmago. Pedaços cruéis, pus espalhado por esta crua rua. Eu blefo realmente as pernas ou as serro pisando em nada? (…) Sim, eu blefo: blefo, escrevendo, um, texto, e , jogo um jogo de letras avulsas (que (tudo) expressam) entre as frases, antes. das palavras, depois. dos sentidos. (…).  Todas fenecem pessoas, edifícios, urubus, pessoas, frutas, pessoas, onze horas, atos, Dante, praças, papagaios, xícaras, flores, chorume, água, vento, onças. Podres pedaços de luz espalhados por esta rua calada. Sento-me ao centro, na mesa, e, bebo meu chá engarrafado entre os carros ao sol: ofício de defuntos sem fundos no fundo da terra agora fenecem o eu lá que julgo despregado desta imagem. Chá! Chá de canela-goiaba, nariz, wanna be, boca, carros, rostos amputados, pêra, um dia a menos, contornos, parafilias, um pouco, sobre mim, descontroles, uma carroça, laranja, pescoços, banana. Chá de cadeira, sentado nela, bebendo chá de rostos. 

Nos contratempos dos dizeres

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em setembro 26, 2008

Buscar o silêncio é querer da morte o acaso. De quem a criança que chora ao lado? Este choro sem fome que devora o meu existir.

Eu. Aqui. Parado.
De onde o vento zunindo esvaziamentos?

Um lugar distante toca em meu ombro; olha-me lento, de modo rasgante.
De onde o vento do nada? Do nada? Por nada?
Chegada ou partida? Resgate?

De quem as linhas adormecidas dos pés que pisando forte acima, abaixo, paredes, lados, me silenciam? Caminham, os pés, onde, para onde? Se andam perdidos nos meus ouvidos os passos. Perder o passo é isto? Perder o sono, perder a calma, criar calos, perder algo? Madrugada, os pés enrugados, poça sem fundo, piscina lodosa, pedra rachada. Os pés escorregam corpos, racham o fundo raso de meus ouvidos. O Mundo ruge sinos, por hora. Leito das promessas.

Buscar o silêncio, não ouvir soluços, tampar com cera os ouvidos, rir às sereias é cantar o acaso. O acaso como coisa ambígua não é coerente ou natural. Canta-lo é desespero e desesperante (errante?), mas é tudo o que sobra dos homens. Que mais pode ser feito? Cantar os passos enquanto me atravessam?

Acalento os ossos com carne. Estou cheiro seco de dedos. Dez dedos de carne na carne dos ossos. Era o tempo das árvores. Era o tempo dos pássaros descansando nos céus. Era o tempo da tarde, das portas, das penas. Era o medo abandonado onde ninguém vê. Era eu, lá, parado. Tic tac tic tac. Explode nas nuvens a noite. Tic / tac tic / tac. Crescem-me os olhos do sol. Cravo o retorno, suspiro um rosto. Escorrego o silêncio, parado. Eu. Aqui estou. Correndo junto às correntes do tempo de cordas cravadas. Estar aqui é calar. Que vento o Nada? Um sino do mundo? Leio promessas.

Parede. Choro. Passos (risadas). Riem de mim os calcanhares? No choro o riso? A fome de terra dos corpos? Parede de vidro, toque dos olhos, sopro refletido, reflexo ébrio, morada? Vizinhos de meu silêncio? Hoje? Amanhã? Amantes? Amar o amanhã, desejando-o. Ter amanhã o minuto. Tic-tac-tic-tac. E agora? Retorno desorientado, entreabrir páginas, entrecortar memórias, reencontrar gritos, espantos, reperguntas. Este amor sem volta? Com nitidez escuto disparos. Contra quem? Por quem? Alguém? Alguém nas pedras confunde o abismo das partes rachadas, que coincidem, com olhos. Coexistem? Hoje? Agora? Sinais do tempo desfeito: a criança chora. E ainda existe o vento com seu acervo de semblantes sonoros. Outra vez, ousei voltar. Outra vez volta a disparar. Revisito as buscas deste momento feito de chumbo que pesa sobre mim a noite inteira; buraco existencial, fotos desaparecidas, despercebidas, sombra de vidro na água. Sufoco o silêncio agudo dos aplausos do outro lado. De quem, à quem, a criança imotivada chora? Tac!

guarda / a / chuva: que resta.

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em setembro 20, 2008

- É o que nos resta! Uma (?) mariposa. Uma mariposa – que voa e volta – ao ponto de onde partiu sem nunca parar /seu/ percurso.

Um inseto que não domou as asas,
que entendeu errado,
que desaprendeu o vôo.

Uma mariposa anciã que curva as patas & de larva, de lama, de resto de “chuva”. Resta também a tarde que se vai…

…………………………………

Restam as nuvens que, como a mariposa, sobrevoam o ir, voltando. A mariposa, belisca ,seu reflexo, nos restos, de chuva, no que restam, das flores.

Um (casulo) não tem boca, mas quando a abre aguça o mundo. Termina nas nuvens do que nos resta, termina o dia, termina tudo. A Chuva. Sem nunca conversarem. Uma mariposa. que voa. e volta. ao ponto. Uma mariposa. Uma mariposa, de tarde, na tarde dos restos do dia. Termina o ir voltando. Um resto do fim tarda, cheira à lama.
Um resto do reflexo feito de restos. Da.
Uma mariposa, nas flores, nos restos das flores, doma as asas em / pleno vôo.
Um resto / de tarde /vai às flores e / se vê noite

( ?!!? )

Deixamos o jardim, as cadeiras, as xícaras, os cigarros e voltamos à porta.

- Será que chove?
- É só o que nos resta!
- Da chuva?
- Nas flores.
- Gotas.
- Reflexos.
- De abelha.
- No chá.
- Com mel?
- Resta?
- Durma!!!
- Sopa de silêncios.
- Pneumonia.
- Guarda a chuva que amanhã veremos.
- Só os restos?
- Da chuva?
- Se é que chove ou choverá…
- No desespero do corpo?
- Nos copos… Setembro…
- Não faça tempestade!
- Lam(b)a!

- A gosto?

Ossadas

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em setembro 16, 2008

Da íris dos olhos (IV)

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em setembro 10, 2008

o “peixe” e o “barco”

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em setembro 5, 2008


- Vocês estiveram juntos?
- Eu tinha algumas perguntas… Imaginei que somente ela saberia da…
- Fala!
- Melhor não.
- Fala!
- Não, esqueça!
- Eu quero. Quero ouvir sair da sua boca. Quero que sua saliva ensope a verdade.
- Você tem escrito?
- Não. Só durmo.
- Acho que escrever ajudaria.
- Diga logo o que quero ouvir. Me lamba com força, vai.
- Você sabe o que direi. Não vejo necessidade.
- Sádico!
- Eu mereço…
- Como ela está?
- Está melhor.
- Ela pensa em se matar?
- Pára, não piore as coisas.
- Eu?

- …

- Você gosta?
- Ainda respiro.
- Conte-me mais, por favor!
- Só quando sua saliva me ensopa de verdades. Sinto-me pura, límpida. Desabo nesse rio de águas verdes onde consigo notar a distância se alastrando e a luz entrecortada pela água. Um único peixe me é especial. Tento cercá-lo a todo custo. Mas, minhas mãos são tão pequenas e o ambiente não é muito favorável. Sonho sempre com ele. Acordo e demoro a recuperar a respiração.
- Entendo. Desculpe, mas você sempre morre no final?
- Não consigo ficar sem ele.
- Você disse ser um barco com uma abertura, uma espécie de janela, no centro?
- Sim. Retinhamos nossos pés para não molhá-los.
- Por isso digo que escreva.
- Como assim? Por que insiste nisso?
- Ora, não percebe que um barco com um furo não pode flutuar? Transpondo para o papel as coisas ficam mais sustentáveis.
- O barco poderia voar que eu não notaria. E a realidade é uma coisa que me corrompe.
- Você está de brincadeira, né?
- De forma alguma.
- Suponhamos que seu barco voe. Onde você estaria?
- Na água.
- A mesma água que você evitara que tocasse seus pés?
- A mesma água que me sufoca os sonhos.
- Quando você esteve nela?
- Passei através da abertura. Mergulhei de olhos fechados. Quando os abri pude a enxergar olhando para mim e o peixe, juntos. Tudo era tão verde e, no principio, tudo parecia tão imediato. As coisas não permaneceram assim. Nem eu mesma permaneci em mim, eu acho. Acho que me tornei líquida.
- Você é linda. Linda!
- Agora você acha lindos os meus pedaços?
- Sempre te descubro linda.

- …

- Você gosta?
- Queria que não fosse tão vazio. Não por falta de pessoas, não é isso. Sinto falta de algo que me acolha quando sozinha.
- Não por falta de pessoas… algo que te acolha…
- É.
- Eu deixo que me acolha.
- Pervertido!
- É sério. Você se acolheria melhor me acolhendo.
- Quando foi que me tornei uma casa?
- E eu um barco?
- Você não era o barco…
- E nem o peixe…
- Não!
- O que sou?
- A língua que me lambe.
- Só tenho dentes.
- Morda-me!
- Você gosta?

Da íris dos olhos (III)

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 28, 2008

infinity: she is a composite number

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 25, 2008

dripping

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 22, 2008

Gostaria de escrever um texto que dissesse as diversas veias oníricas de meus textos, os processos cognitivos de minha linguagem automática. Questionar a existência do algo fora de meu ser atemporal. Um crítico talvez comportasse os contextos de minha construção. Mas, não consigo conceber o tempo de meus discursos, por isso, durmo. Talvez construa uma idéia sobre leituras, sejam elas, pessoais ou linguagem pura. Em meus sonhos nada dura.

Da íris dos olhos (II)

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 21, 2008

Restos Gestos

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 19, 2008

Um poeta impossibilitado de falar escreveu, por mera falta de inspiração, em seu peito e braços, nas pernas e nos olhos:

“Tão rígidas se formam na boca as palavras. Nenhuma brisa frígida será capaz de carregar a rigidez desse silêncio encarcerado em meu coração e tecidos, em minhas cordas vocais, mucosas e nos ouvidos. Mais um trago de pedra e meus dentes se tornarão o concreto de inúmeras tumbas. Minha língua deslocará sua rigidez muda. Tudo permanecerá idêntico ao silêncio agudo que não me lega palavras, não me deixa existir pleno, que costura meus lábios com um sorriso palpável de desconfiança. Tem razão, eu realmente não agüentaria o sofrimento de não poder dizer a rigidez de pedra de teus dizeres, não agüentaria ter meus lábios selados, não suportaria não possuir  língua para gozar em suas ancas os desgostos não ditos, nas aftas já secas de tua saliva, em suas transparências ignotas. Não agüentaria levantar paredes que me aprisionem. Morreria sem janelas que me sufoquem. Permanecerei sendo escutado pelas vozes que te consomem os pensamentos. As mesmas vozes-gestos-agulhas que me enlatam o mundo, que bebem de meus ventos, que me amam e, justamente por isso, devoram as minhas margens. Um dia, quem sabe, degole essa liberdade híbrida que não consigo dizer.”

Poeta que morreu reduzido às palavras acessas. Cansou das velhas cortinas. Morreu cheiro de pó e apenas. Não há mistério no cheiro de sangue escrito em sua goela. Houve um tempo de essências e de soslaio morreu cúmplice de seus respingos escritos nos olhos. Houve um tempo de gestos-disfarces intransponíveis, além de cortantes; voz presente jamais. Refletiu sobre as transparências das tardes inauditas de suas infâncias e novamente matou seu corpo e trespassou culpas.

Alegorias atadas à cama

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 7, 2008

Junto à cama. Ela. O mundo. Imóvel.  Relógio. Inumeráveis ponteiros. Pousava os olhos em si mesma. Girava. Ela sabia como se enxergar, tatear, se ouvir e se dizer. Tinha pés. Dentes. Também mãos e cobertores. A Cama. Tornara-se imóvel. Zumbido. Noite. Luz. Cortina. Vento. Ponderava minuciosamente diversas ânsias de movimentos. Prematuros e ardentes gostos derretiam os lábios. Sentia-se. Saliva. Talvez movesse somente os dedos. Seios. Queria roçar, morder, unhar, gemer. Primeiro um dedo. Língua. Suor. Calor. Uma aranha tecia, lentamente, sua queda. Debaixo do travesseiro: Mosquitos. Unhas. Riscos. Carne. O mundo escoava; coçava.  Muros pacatos. Espaços vazios. Hoje. Malícias. Já. Pimentas. Formigas. Agora. Pêlos. Queria aprender a morrer. Gozar era quase aprender. O Sangue. O Branco. Os Dentes. O Vermelho. Úlceras. Que importa este impulso se permaneço nesse momento? Pensou. Uma perna fugiu. Outra. Passos. Uma sombra se projetou na parede. Duas. Permaneceram. Jornal. Cadeira. Telefone. Cigarro. A aranha sabia dos pés mesmo sem tê-los. Atados. As teias. As veias. O Pulso. Eu. Matei e não me arrependi. Morri sorrindo. Lençóis. Mãos. Sua linda nuca. O ruído de dois corpos apodrecendo.

Querer: As manhãs.

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em agosto 3, 2008

Te quero as manhãs. Entrever a aurora orvalhando na pele suas rosas. Te quero as manhãs para sobrevoar o fim. O renascer dos lábios que me devoram e destroçam. Teu olhar que germina destruição, triste como um triste cão. O céu também deseja que lhe envolva. Avessos voam os pássaros buscando seus seios, ninhos, em vão. Qual abelhas, os pássaros, buscam no mel um resto que lembre seu corpo. As nuvens já não choramingam. Elas aprenderam a lua. As nuvens escapam da lua quando não ocultam os desejos. Repare bem a multidão. São tantas as horas, as ruínas, nos rostos. Percebe como cavam fossas sem saberem aonde chegarão ou quem se tornarão? Não percebem que sempre será insuficiente o oxigênio e a força dos braços. Será, também, essa a nossa sina? Nunca! Sabemos que não existe destino que não o toque. Não existem destinos, nem esperanças, que nos deite no chão. Nós nos deitaremos sozinhos e beijaremos os riscos que nos cortarem as mãos. Seremos sempre aquela oscilação serena que se abandona nos telhados. Quero, do mesmo modo que o céu, os tons de seu corpo. O presente é como um dia que arrisca terminar sua cor.

tenho dois espelhos

Publicado em Sem-categoria por Frederico Martins em julho 31, 2008

Tenho dois espelhos
Qual mais assusta?
Um descobre o inverso
O outro forma pura

Num estou carne
Noutro ternura
Num não tenho nada
Noutro imagem funda

Se uno os inversos
No cerne me perco
Tenho túmulos abertos
Alguns olhos imersos
E secura

…tamanha ferida
imunda

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.